primeira carta
t., antes de começar a escrever estas linhas olho através da janela perdendo a noção do tempo. do lado de fora neve nos telhados, árvores nuas, nuvens atravessando o céu, as janelas do edifício em frente vibram de forma ameaçadora com a força do vento. os dias são curtos. a luz começa a diminuir a sua intensidade ainda a tarde não vai a meio.
no verão passado, destruí todos os meus papeis e anotações que vinha compilando desde há 15 anos. o sucedido talvez te provoque comoção. não havia alternativa a este desfecho. todos os cadernos que tinha guardado, escritos, manuscritos, reflectiam um passado para o qual já não encontrava entendimento. a cabeça e a mão que anotaram aqueles pensamentos, são já outra cabeça e mão. o estilo nómada que a minha vida assumiu, sem intenção, transformou essa mão e cabeça de forma irreversível. outra mão e cabeça escreverão e pensarão agora se tal for possível.
que isto não nos torne estranhos é o desejo que sempre se mantém apesar das constantes viagens, da distância de espaço e tempo que permeia a nossa correspondência. anexo uma imagem de geogia o'keefe, que saturou a minha atenção na manhã de hoje. adeus, s.